IMAGEM DO SOM | Reportagem de Espetáculos

JAMES BLAKE | "Enough Thunder"


JAMES BLAKE

Enough Thunder

01. Once We All Agree
02. We Might Feel Insound
03. Fall Creek Boys Choir (With Bon Iver)
04. A Case Of You
05. Not Long Now
06. Enought Thunder

Crítica de Maria João Teles Grilo

Foi há cerca de dois anos sensivelmente que James Blake, o wunderkind de um fenómeno chamado dubstep, tomou de assalto o espaço cibernético com os EP “The Bells Sketch”, “CMYK” e “Klavierwerke”, aos quais se seguiu o tão esperado longa-duração de título homónimo. Produto de uma amálgama ambiciosa e inovadora de influências musicais, fundidas por meio de eletrónicas minimalistas e técnicas de manipulação vocal, o virtuoso álbum “James Blake”, editado no início de 2011, primeiro causou estranheza, entranhando-se depois nas graças do público através de faixas tão pouco convencionais como “Unluck”, “The Wilhem Scream” e as partes um e dois de “Lindisfarne”.

Testemunho da prolixa criatividade de James Blake, que serve de subterfúgio face ao sempre iminente perigo de estagnação e às sufocantes teias do marasmo, “Enough Thunder” surge como retrato de um período de produção artística e musical assente na exploração da faceta de cantautor. Certamente, a escolha de “A Case Of You”, da autoria de Joni Mitchell, para primeiro single não foi fruto do acaso. Ao contrário de “Limit To Your Love”, original de Feist que serviu de matéria-prima para uma incursão pelo universo do pós-dubstep, em “A Case Of You”, a guitarra é simplesmente substituída pelo piano e a voz colocada em destaque, sendo o jogo entre tensão e resolução uma constante. Esta abordagem desprovida de adornoseletrónicos e melancolicamente catártica está também presente na faixa de abertura “Once We All Agree” e, sobretudo, na composição original “Enough Thunder”, a qual evoca, ainda que timidamente, a aura do jazz, do gospel e do soul, géneros tão admirados pelo produtor londrino.

Porém, os traços singulares do som desenvolvido por James Blake na esteira de Burial e xxx, através de uma orquestra futurista composta por sintetizadores, caixas de ritmos, vocoders, auto-tuners, entre outros, saem da penumbra em “We Might Feel Unsound” e “Not Long Now” cujos elementos rítmicos aparentemente desencontrados e teimosamente repetitivos assemelham-se aos de uma instalação artística. A faixa “Fall Creek Boys Choir”, por seu turno, resulta da colaboração com um dos titãs do panorama musical de hoje: Justin Vernon. Assim como “Measurements”, que consta do álbum de estreia, este dueto ilustra a capacidade primorosa de Blake em cortar e colar vozes, construindo assim um autêntico caleidoscópio vocal integrado numa atmosfera sonora de beleza alienígena e claustrofóbica capaz de nos reconfortar.

Com efeito, em “Enough Thunder”, parece haver uma tentativa de conjugação de dois mundos, que, embora sejam, à primeira vista, antagónicos, conseguem facilmente moldar-se um ao outro a fim de coexistirem em harmonia. E é esse o grande feito de James Blake neste EP: a combinação da intensidade orgânica do dubstep (na sua vertente mais ligeira), cujo centro de gravidade reside na linha de baixo, envolta em sequências de bateria, ruídos instáveis e lamentos sintetizados, com a simplicidade da canónica balada ao piano, complementado por uma voz límpida e solitária.

Classificação 9/10
Science & Faith

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