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DEALEMA | "A Grande Tribulação"


DEALEMA

A Grande Tribulação

01. Entra na Cripta
02. A Fonte
03. O Olho que Vê Tudo
04. Banco dos Réus
05. Léxico Disléxico
06. Escrevo pela Liberdade
07. Verdade ou Consequência
08. Nada Dura para Sempre
09. Tempestade Mental
10. A Grande Tribulação
11. Tempos de Miúdo
12. Pentágono
13. Limiar da Sanidade
14. A Última Criança
15. Paz nas Trevas

Crítica de Ricardo Toga

Mestres de cerimónia e vozes conscientes, o brasão mais emblemático de um movimento urbano, outrora no underground, que se estende nos cinco vértices do pentagrama: falámos de Dealema. Notável a marca dos 15 anos de carreira, particularmente para um quinteto da cena de Hip Hop, uma corrente presente em Portugal desde os inícios dos anos 90. Maze, Mundo, Ex-Peão, Fuse e Dj Guze materializam o feito e demonstram que vieram mesmo para ficar.

A Grande Tribulação marca o retorno de Dealema à cena do crime - verdades corrosivas, rimas pertinentes e beats que lancetam a apatia, são provas que denunciam a autoria do delito, um ato não aconselhável aos mais sensíveis, sob pena de moldarem um novo ser. O rasto de pistas alonga-se por 15 faixas, elas reconstroem o cenário grotesco que teima em fazer vítimas. O coletivo tripeiro não desilude e mostra-se igual a ele próprio, em mais um registo sério – algo raro no Hip Hop – capaz de resgatar toda a nossa atenção na capacidade de debitar rimas dos Mc’s, enquanto somos conduzidos por sons bipolares, umas vezes com passagens sacras, outras repletas de delírio mental e assombros.

Com coragem entramos na cripta, somos avisados do que nos espera, serviu para aguçar o apetite e começa o embrenho musical. Ouvimos “A Fonte” e logo o groove resvala nos canais auditivos fazendo abalar as têmporas, um sismo com epicentro nos tímpanos que logo se alastra ao cérebro. A letra é, como todas, coerente e carrega uma mensagem - “Do berço ao túmulo… sou especial” vocifera Fusão, o que sintetiza bem o recheio deste tema. O grande irmão tem o “Olho Que Tudo Vê”, a agenda de governos sombra vem ao de cima, como que um alerta para o estado zombie em que nos encontrámos, onde “o ecrã suga a inocência” e pouco mais resta que “propaganda”. Os homens são recursos e parece não haver réstia de esperança, bem ao estilo de 1984, mas com uma abordagem atual. A melodia que brota do “Banco dos Réus” é própria do armagedão, suave e melancólica mas com rasgos de ira, principalmente quando é Inspector Mórbido a imprimir a sua voz obscura. O dia do juízo final é a reflexão que sustenta este tema, “haverá salvação”? Mais rápido, frenético até, é o ritmo de “Léxico Disléxico”, onde assumem o seu papel interventivo e Mundo, em particular, dá um autêntico show de rimas incessantes, desafiando até o próprio dicionário. “Escrevo Pela Liberdade” é como uma revolução que arranca na escrita e termina no nosso interior.

E eis que surge uma das melhores provas do crime, “Verdade ou Consequência”, se dúvidas existiam foram dissipadas. O veredicto final? A confirmação de Dealema como autores de muitos dos melhores sons que figuram no hip hop nacional. Dj Guze cria um ambiente de demência e loucura, uma viagem numa casa de diversões infantis, “no palácio de espelhos”, um autêntico “circo demoníaco”, onde fantoches, marionetas e outros bonecos, nos tentam agarrar com violência para um universo cruel. O poder lírico do quinteto conduz-nos a novas visões, é este o lado negro de Dealema, sinistro, com indumentárias de cabedal negro, um pesadelo com “duendes e anões”, uma “montanha russa” com “5 G’s de gravidade”, e até um poço da morte. Sem dúvida um ritual sobrenatural impossível de resistir. Para harmonizar os sentimentos chega “Nada Dura Para Sempre”, um dique introspetivo e existencialista, composto por noções de efemeridade e intimidade, pensamentos que, sem qualquer seletividade, vivem no nosso subconsciente. “A Tempestade Mental” é a nona prova, mantêm a inspiração interior e levam-nos a “A Grande Tribulação”. Há “sangue fresco no asfalto”, “casas barricadas” e uma” vigilância à luz de velas” num cenário de guerra. Em contrabalanço surge, de novo, a impetuosa faceta funesta do coletivo, chegámos a um “admirável mundo novo” governado pelo caos e medo, o beat pesado indicia a auto sentença levada a cabo pela humanidade, que agora perdeu o pouco que restava do seu sentido lato. Sucede-se uma travessia nostálgica, memórias de criança, partilha de vivências, sempre acondicionados por uma melodia calma e adequada, são “Tempos de Miúdo”.

Pentágono traz-nos o”homem em missão” e a lembrança do melhor álbum de Dealema, Expresso do Submundo, no longínquo ano de 1996. Por esta altura é já percetível que este é um álbum de dualidades, desde a esperança à condenação, o sinistro e o divino, a sanidade e a loucura, o hoje e o amanhã. E tudo se conjuga com coerência, como é o caso de “Limiar da Verdade”. Foi este sentimento que ajudou a parir A Ultima Criança, a faixa que, provavelmente, mais vai rodar nas rádios. Com uma mensagem positiva e virtuosa, capaz de emocionar, fomenta a necessidade de mudança de rumo com vista a um futuro próspero – todos sabemos que as crianças de hoje são os adultos de amanhã. A travessia de A Grande Tribulação termina na “Paz das Trevas”, um instrumental assombrado e explicito que dispensa qualquer vocábulo a acompanhar.

É mais um trabalho positivo dos Dealema, que traz seriedade ao Hip Hop, um género que ainda há pouco tempo se encontrava infestado de oportunistas e posters, trazidos pelas correntes fortes do mar da moda. Uma das maiores virtudes do quinteto reside na personalidade de cada uma das quatros vozes: Mundo é como que o erudito das ruas, Ex-Peão a voz da revolução, Fuse é a presença do além e Maze a razão serena que prospera. Sem esquecer Dj Guze que, com melodias, acentua o fulgor das rimas dos companheiros.

Classificação 7/10
Science & Faith

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