IMAGEM DO SOM | Reportagem de Espetáculos

Cintura

Foi bem no centro histórico de Penafiel que os Cintura receberam a Imagem do Som, para uma conversa, durante a qual Hélder, Tavares e Eduardo deram a conhecer um pouco mais de um projecto que, cuidadosamente preparado ao longo de anos, pretende chegar a um lugar de destaque na música portuguesa.

Como nascem, de onde vêm os Cintura?

Eduardo - Estamos aqui três, mas isto passou de duo a trio… e, aí tem que ser eles a explicar, porque eu só entrei depois.

Tavares - O projecto começou em 2003, nasceu comigo e com o Hélder, bateria e piano.

Eduardo - E não só; não meteste programações?

Hélder - Sim, quando tu entraste já tínhamos programações.

Tavares - Ok. Entre 2003 e 2007 foi basicamente explorar, pois ainda não sabíamos muito bem para que lado queríamos ir; ainda por cima compúnhamos bateria e piano e a sonoridade não estava muito bem definida.

Hélder - Queríamos era fugir àquilo que já existia e sabíamos que um piano e uma bateria automaticamente iam quebrar muitas regras.

Tavares - Entretanto em 2007 surgiu a oportunidade de tocarmos ao vivo. Só foi nesse ano que demos o nosso primeiro concerto e foi então que convidamos o Eduardo para ser o nosso baixista…

… ou seja, vocês enquanto duo, estão quatro anos em sala de ensaio, a preparar um projecto que surge ao publico, depois, já em trio…

Eduardo - Sim, mas quando surgimos em 2007, muitas mudanças foram feitas, logo o facto de ter entrado o baixo, a sonoridade já foi outra; depois, já nem me recordo se se mantiveram as musicas como estavam…

Hélder - Sim, sim, sofreram algumas alterações.

Eduardo - Apareceram temas novos…

E depois desse vosso primeiro concerto, como foi o percurso até entrarem em estúdio para gravar?

Tavares - Nós optámos por gravar tema a tema e fomos editando tema a tema. Gravamos um tema, colocamos na net,

Eduardo - Logo em 2007…

Tavares - … fomos percebendo o feedback; entretanto, um ano depois editamos outro tema, colocamos só na net, até que a meio de 2010 achamos que era importante mesmo compilar e pegar nesses temas que tinham sido editados um a um e juntar tudo num Ep… optamos por um Ep, pequeno…

Hélder - Com os temas gravados até à altura e gravámos mais dois.

Os Cintura são, então, um grupo cauteloso, prevenido, no sentido de que estão mais de quatro anos a preparar o surgimento ao público…

Eduardo - Sim, mas eu acho que o facto de virmos todos de outras bandas, deu-nos alguma experiência. Sabíamos que, à partida, lançar logo um álbum era asneira, porque as coisas tem que ir aos poucos. Nós fomos mais pela via de tocar ao vivo, até para ver a reacção das pessoas… e lá está, saiu primeiro o Zero Sete, depois o Nó da Gravata, depois Um Café Só, depois ete Ep.

Hélder - Nós sabemos exactamente os passos que devem ser dados e como devem ser dados.

Tavares - E queremos dá-los com firmeza, que isso é importante.

Hélder - Cada coisa no seu devido lugar.

E então que ‘coisa’ vem aí agora?

Eduardo - Agora sim, já se sente a necessidade desse tal…

Todos - … Álbum !

Tavares - Agora é tocar ao vivo, fundamentalmente, e o álbum.

Eduardo - Mas também temos que perceber que fazer um álbum não é assim tão simples, porque quando estamos a falar de edição de autor, não é fácil e um álbum não é barato.

E como tem sido a resposta do público?

Eduardo - Eu pessoalmente posso dar como exemplo este último concerto, em que vocês, a Imagem do Som, estiveram lá. Fiquei um bocado admirado e nós até chegamos a comentar , que tínhamos uma sala completamente cheia, tínhamos pessoas a cantar as nossas musicas… quer dizer que estes anos todos de trabalho resultaram.

Hélder - Tem sido muito bom, sobretudo depois de algumas coisas que foram acontecendo, nomeadamente televisão, que ajuda imenso; toda a gente sabe; e mesmo as rádios que têm passado bastante a nossa musica. Isto reflecte-se logo no público e é sempre uma surpresa ver as pessoas a cantar os nossos temas e nós gostamos imenso.

E por onde é que essas pessoas vão andara cantar os vossos temas? O que têm agendado?

Eduardo - Temos 8 datas agendadas mas estamos à espera de mais .

Hélder - Vamos estar em Santo Tirso, Mondim de Basto, Moncorvo, vamos estar em Lisboa também…

Como é que vocês definem o vosso som?

Eduardo - Têm-nos definido como tendo uma sonoridade Pop, mainstream,. E isso é o que chega ás massas. Eu creio que posso falar pelos três… nós não compomos nem fazemos as musicas a pensar nas massas. Fazemos aquilo que gostamos. Agora eu, pessoalmente acho que estamos um bocado dentro desse Pop, agora se vai chegar ás massas ou não…

Passa-vos pela cabeça, fazerem da música o vosso único meio de vida, a vossa profissão?

Hélder - Claro que sim.

Tavares - Esse é o objectivo

Eduardo - Se houver massa para pagar o álbum…

Como estão as perspectivas para lá chegar?

Hélder - Perspectivas… já estiveram bem pior.

Tavares - Sim, estiveram bem pior, mas isso depende de muita coisa… principalmente do budget; se há budget para sustentar três músicos.

Eduardo - São precisos concertos, bastantes concertos com cachets razoáveis. Nós temos muitas despesas.

Hélder - É pena, mas as pessoas não dão o devido valor à musica; pensam que fazer música é uma brincadeira.

Mas tu achas isso mesmo, que as pessoas não dão valor à musica?

Hélder - Podem dar valor à musica, produto final, mas não fazem ideia do trabalho que está por trás até chegarmos acima do palco e tocarmos durante uma hora ou hora e meia; o público não faz ideia do que é chegar a esse patamar.

E é por aí mesmo, pelo palco que passa hoje a vida de uma banda, não tanto pelos discos?

Eduardo - Sim. Eu pessoalmente não acredito na venda de discos.

Tavares - Isso já passou o tempo…

Eduardo - Tanto é assim que nós temos os nossos temas à borla na internet. Agora já temos grandes bandas como os Radiohead a fazer o mesmo; quer dizer, se eles são grandes e fazem, não vamos ser nós que vamos dizer que não a isso.

E, mesmo assim, vale a pena fazer discos?

Tavares - Vale. É um cartão de visita.

Eduardo - E há uma pequena minoria que gosta de ter discos; se calhar até os saca na net, mas se gosta, compra o álbum.

Hélder - Não há nada como ter o original. E também há o aspecto da realização pessoal.

Como é ser-se uma banda de Penafiel? É indiferente estar em Penafiel ou em Lisboa?

Eduardo - Havendo os meios de comunicação que nós temos agora, a facilidade de colocar as coisas na internet, a partira daí é um bocado igual; podemos fazer a música no Porto, em Penafiel ou em Lisboa e a música chega ás pessoas. Agora a nível de oportunidades em Lisboa está melhor. Nós sabemos perfeitamente isso, porque sempre que queremos algo mais importante temos que ir lá.

Hélder - Em Lisboa está concentrado tudo e estar em Penafiel, é estar longe no sentido prático as coisas; é não estar acessível, porque nem tudo se passa a nível de internet. É só nesse sentida; não em termos de composição, porque se calhar até é melhor estar em Penafiel.

Eduardo - É mais calmo, não estamos com aquele stress… sei lá… dos carros a passar, da confusão, dessas coisas todas… por isso estamos no meio do monte, o que é óptimo.

Vocês andam à procura de um lugar de destaque no nosso panorama musical, que está inundado de novas bandas, novos projectos. Como vêem a nossa música?

Eduardo - Em Portugal a triagem está bem feita, porque realmente há bandas sem qualidade nenhuma, mas a essas ninguém as ouve. Eu acho que as bandas que se vão ouvindo, ou na televisão, ou na rádio têm qualidade. Pelo menos daquilo que ouço, nunca disse de nenhuma banda ‘isto é horrível’.

Hélder - Cada vez há mais bandas, mais oportunidades de se mostrarem

E, há espaço para elas todas?

Hélder - Haver espaço, é que não. Aí funciona a tal triagem de que o Eduardo estava a falar.

Eduardo - É que estamos a falar de um país que não aposta muito nisso.

Tavares - Agora aposta. Não o fez durante muitos anos. Por isso aconteceu agora este boom de bandas portuguesas. Começou a haver alguma aposta em bandas portuguesas e então começaram a aparecer muitos projectos; mas estivemos 15 ou 20 anos sem fazer rigorosamente nada nesse sentido. As rádios não passavam musica portuguesa, as televisões não passavam musica portuguesa…

Eduardo - Isto é recente. São coisas do ano 2000.

Sente-se também, hoje em dia, algum revivalismo. Bandas a ressurgir, a repescar sons antigos…

Eduardo - Há muitas. Acho que para essas bandas não foi fácil lidar com o facto de terem estado lá no top e agora estarem de novo cá mais em baixo. Posso dar o exemplo de uma banda, que, para mim, foi uma das melhores de sempre, os Pixies. O facto de eles terem reaparecido agora, não me deu vontade nenhuma de ir vê-los ao vivo, porque Pixies era Pixies naquela altura. É óbvio que continuam a ser muito bons músicos, mas para mim já não é a mesma coisa.

Quais são as vossas preferências musicais, além dos Pixies?

Eduardo - Eu sempre ouvi muito de tudo, porque eu estudei musica clássica e jazz. Agora, é óbvio que na nossa banda, o rock tem a preferência, apesar de não usarmos guitarras. Posso dar exemplos, Pixies, U2, Radiohead, Nirvana, eu sei lá, tantos…

E em Portugal? O que destacam?

Eduardo - Eu gosto muito do trabalho do Manel Cruz, gosto muito de Foge Foge Bandido.

Tavares - Os Clã.

Hélder - Há vários e bons projectos; mesmo recentes, há coisas interessantes.

Muito obrigado a todos pela disponibilidade. A Imagem do Som deseja-vos todas as felicidades para o futuro.

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