IMAGEM DO SOM | Reportagem de Espetáculos

Burro de Barro

Burro de Barro… Porquê?

José Tiago – A ideia inicial era que o nome da banda fosse apenas Burro, era um insulto recorrente entre mim e o Nuno, um elemento que não está presente por se encontrar em Budapeste mas que vai voltar já em Janeiro. E como pretendíamos trabalhar com música tradicional achamos que a imagem do burro se adequava pois também ele é uma figura tradicional, associado muitas vezes a ideias pejorativas, o que chocava um pouco as pessoas e chamava-lhes a atenção. Entretanto surgiu o barro… uma ligação com a terra, com o natural, um recurso do artesanato…

E o vosso lema? Ainda continua a ser “Intervir, lutar e entreter o povo”?

Vanessa – Isso ainda está no site? (risos) A parte do entreter gosto bastante, a do intervir é que acho demasiado forte… É certo que tocamos instrumentos tradicionais e até intervimos, mas apenas numa facção cultural e nunca política.

Galhardo – Muitas vezes associa-se a intervenção a um sentido partidário, não é o caso… Queremos que a música seja um veículo da cultura…

Vanessa – E em velocidade. As nossas letras falam de razões nobres, da amizade, da relação entre pessoas, um pouco também do nosso Portugal social, mas não queremos ser relacionados com uma banda de intervenção política. Até porque não iria funcionar, somos todos muito diferentes, temos experiências passadas distintas e ideias distintas, até musicalmente notamos isso… Uns gostam de metal, outros do Avô Cantigas e da Ana Malhoa… (risos)

Não deixa de ser curioso que um dos vossos concertos com mais público tenha sido numa comemoração do 25 de Abril…

Vanessa – Foi lindo, correu muito bem, fomos convidados, não foi Zé?

José Tiago – Sim, pela Associação José Afonso e tivemos o maior gosto em participar. Foi muito importante, tocamos pela primeira vez para uma plateia enorme…

Vanessa – Foi uma experiência intensa, forte…

O facto de utilizarem tantos instrumentos, não resulta em problemas por vezes?

Galhardo - Demasiadas vezes… Temos vários instrumentos acústicos o que obriga a um soundcheck muito cuidadoso, exige tempo… Já aconteceu não se ouvir o violino, o cavaquinho… Mas até mesmo essas experiências servem para tirarmos lições e aspectos positivos, aprendemos a trabalhar melhor em conjunto.

Vanessa – Até porque esta formação está junta há cerca de um ano, somos seis membros que contribuem com uma pluralidade musical, que acaba por nos caracterizar, é importante partilharmos o palco, mesmo que não corra tão bem, ajuda-nos a crescer enquanto músicos e a conhecermo-nos melhor.

E seis pessoas distintas não poderão ter interpretações diferentes da própria música?

Jesus - Acho que nunca nos colocaram essa questão, no entanto acho que essa tarefa, a da interpretação, cabe mais ao público, nós tratamos da criação. Tentamos divertimo-nos enquanto tocamos, a interpretação do que se ouve pode ser variada…

José Tiago – Por vezes chegamos ao ensaio e trocamos várias ideias, isso é a nossa interpretação da música, procuramos mais igualdade, um som mais homogéneo e que pertença a todos nós.

Vanessa – Nós não negamos a vontade de ninguém, todos temos opiniões e somos dados a experimentações, tentamos muitas coisas para ver se resultam.

A língua portuguesa acaba por ser um excelente instrumento para reforçar a vossa expressão cultural, tradicional e sentimental?

Vanessa – É uma língua bastante complexa a nível semântico, existe muito vocabulário, o que dá espaço a várias interpretações… Para nós, portugueses, é mais fácil de perceber as palavras, mas acredito que mesmo aqueles que não percebam a língua conseguem tirar uma mensagem, afinal a música é uma linguagem universal.

O que sentem do panorama cultural do nosso país?

Galhardo – Nos últimos anos a cultura sofre cortes sucessivos nos apoios por parte do Governo, é uma perspectiva de mercantilização da cultura, quem sofre são os artistas e também o público. Ainda recentemente uma banda foi convidada para tocar de graça num concerto que ia envolver muito dinheiro, eles fizeram a contra proposta de receber um cachet quase simbólico e tiveram uma resposta negativa e uma repreensão, da promotora, que criticou a posição da banda. Também temos uma experiência em que tocamos num concurso de bandas onde a eleição seria feita por um júri e pelo público presente e a organização surpreendeu-nos no próprio dia ao indicar que a votação do público seria feita no facebook, uma autêntica desconsideração pelo público presente. São vários os exemplos de comportamentos menos correctos com os artistas, mas não baixamos os braços…

José Tiago – Há uma falta de respeito com os músicos e a arte em geral, por vezes parece uma ideia generalizada que temos de trabalhar de graça… Muita gente acha que temos de nos sujeitar ao comércio, todos queremos singrar mas não dessa forma. Não queremos mais do mesmo, artistas que vivem de uma imagem e que o resto pouco interessa. Para além da falta de promoção cultural por parte dos municípios ou casas de espectáculo….

A aposta num evento cultural depende sempre do seu sustentamento económico ou até do lucro…

José Tiago – Infelizmente… Toda a gente sabe que as autarquias têm equipamento ou facilidade de os arranjar, é tudo muito incoerente por que encontras muitas vezes gente pouco profissional. Por exemplo, chegamos a um espaço para tocarmos e não têm microfones suficientes, há falta de interesse e prevalece o método do desenrasca.

Não estão propriamente a pedir os chocolates divididos por cores, ou outras exigências do género sem qualquer sentido.

José Tiago – Claro, pedimos os recursos necessários à nossa actuação, mesmo que fossemos conhecidos não seria diferente…

Cristiano – É impossível realizar um bom concerto sem as condições mínimas.

José Tiago – Infelizmente o panorama cultural e artístico em Portugal funciona assim, é um pau de dois bicos, duas extremidades e não há meio-termo. Por um lado temos os grandes artistas, promovidos a mil à hora pela indústria e que ganham um bom dinheiro, do outro, tens artistas que se esforçam, não são conhecidos, produzem o que gostam e criam a própria moda, mas não podem concretizar o projecto porque, dizem-lhes, não é rentável.

Na verdade a cultura e a arte não deveriam obedecer cegamente a essas regras…

José Tiago – Aprender música é caro, os instrumentos são caros, alugar um espaço é caro, as cordas para o violino são caras, comprar um álbum é caro, assistir um concerto é caro, enfim, parece que está tudo contra um movimento que tanto poderia beneficiar a sociedade e mudar tanta coisa. As pessoas deveriam de ter consciência que diariamente estão a produzir cultura, estamos ao mesmo nível.

Galhardo – Outro exemplo, no Porto não existe nenhuma sala de ensaio públicas como existe em Almada ou Torrões. Até ensaiar custa dinheiro… É preciso ser persistente para continuar, até porque a música é uma segunda vida para nós, todos trabalhamos ou estudámos.

Para terminar, “somos especiais” é uma das expressões que se percebe numa das vossas músicas, querem explicar?

Vanessa – Não o somos só nós… Todos os outros também. Cada pessoa tem um determinado papel, todos juntos podemos alcançar o que quisermos…

José Tiago – Todos somos especiais, mesmo aqueles que não acreditam nisso.

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