IMAGEM DO SOM | Reportagem de Espetáculos

Cosie Cherie

Num shopping repleto de gente em ebulição, numa constante azáfama ruidosa que não dava sinais de terminar, encontrámos duas almas serenas e tranquilas, que depois de expressarem em palco a sua arte sentaram-se à mesa com a Imagem do Som. Partilhamos aqui a agradável conversa com Tânia e Job, musicalmente conhecidos como Cosie Cherie.

O nome do álbum parece-me curioso. Porquê Book of Music?

Tânia – Desde que começamos a tocar juntos, em 2006, que fomos coleccionando todas as composições e escrita de músicas num caderno. Queria que fosse uma coisa organizada mas acabou por se tornar num mundo de papéis. Andamos sempre com esse caderno e como os temas de esse álbum o preenchem, desde músicas de 2006 até agora, vemos nele o início de um ciclo. Aquele livro simboliza o nosso começo.

E por falar em começo, como se conheceram?

T – Foi também em 2006, durante o Verão. Ele acabou por se mudar para cá depois de ter terminado o curso de cinema. Andava sempre com uma viola, estava sempre presente, depois de mudar de país era como a sua família e amigos. (risos)

Job – Sim, é verdade, já tocava viola há dois anos e ajudou-me em momentos mais difíceis. Claro que a trouxe quando vim para Portugal. Aliás, ainda me lembro bem, foi uma situação um pouco estranha… Estávamos a olhar para o mapa, apontamos para o sul e pensamos – “Bem… é este o sítio, vamos lá”. Foi depois dessa viagem que conheci a Tânia. Acabei por me mudar para cá, vim à procura de uma oportunidade, já tinha o diploma, tinha um trabalho temporário sem importância, reuni algum dinheiro e resolvi arriscar. Foi uma grande mudança na altura.

Começaram então a compor com mais regularidade?

T – O Job já tinha escrito a BlueSky e eu costumava cantarolar com ele. Fizemos depois a What Will You Do que também está no álbum. Havia um grupo de amigos que nos pediam para tocar e diziam que gostavam, deu-nos alguma força. Registávamos tudo o que compúnhamos, gravávamos no telemóvel, com uma câmara, a intenção era não nos esquecer de nada. Foi então que passámos a utilizar o MySpace para partilhar músicas com amigos e acabamos por receber um contacto da Fabulous Generation que nos convidou a gravar um EP em finais de 2009. Gravámos cinco músicas e apenas duas é que estavam no MySpace.

E como se deu esse processo de gravação. Foi fácil?

T – Não tínhamos dinheiro para ir para um estúdio e também não pretendíamos dar esse passo. Para trabalhar com outras pessoas é preciso muita confiança naquilo que fazes. Decidimos comprar microfones e outros materiais e gravámos em casa. Fizemos o mesmo com o Book of Music.

J – E a Fabulous Generation tratou da produção do álbum.

Como se grava um álbum em casa? Um estúdio oferece outras condições, tiveram de ser mais criativos?

J – Foi bom porque permitiu mais experimentalismos. Além disso acho que algumas músicas acabam por soar melhor por serem mais naturais.

T – Uma das canções foi gravada na garagem e por isso tem um eco próprio. Funcionou bem. É possível gravar em casa mas tivemos de aprofundar os nossos conhecimentos técnicos. A experiência de gravação do EP foi enriquecedora, principalmente porque ficamos melhor preparados para gravar o álbum.

Estiveram desde 2006 até 2010 a compor e então surgiu a oportunidade de gravar. Costumavam pensar nisso? Em gravar um álbum, dar concertos para mais gente que não só os amigos?

T – O Job já vinha de um meio musical onde muitos dos seus amigos tinham bandas e experiência. Por isso tínhamos esse testemunho, sabíamos que era possível e era inevitável não pensar nisso, mesmo que parecesse fantasia.

J – Com eles aprendi a ter consciência musical, a tratar a música com muito cuidado, fazer as coisas com gosto e com tempo. É preciso calma e paciência. Até porque a música é algo intimo, de possibilidades infinitas.

T – Tem de haver muito respeito para ninguém se atropelar pelo caminho. Toda esta aprendizagem foi muito importante.

O momento também deve de ser aproveitado para fazer boa música. Pode-se dizer que a Travelling e a Underground são fruto desta ideia?

T – Sim. A Travelling foi escrita enquanto estávamos a viajar de comboio na Holanda e a melodia foi criada pelo Job enquanto andava de bicicleta. A Underground foi escrita quando o Job morava muito perto do metro, em Lisboa.

J – A minha presença no metro era um pouco estranha, era um turista residente em Portugal que observava as pessoas, partiam e chegavam numa rotina diária. Este ambiente serviu de inspiração.

E quanto a concertos? No dia 10 de Dezembro vão dar um concerto em Torres Vedras no Teatro Cine, é uma data especial por tocarem em casa e por apresentarem o “Laboratório Criativo”?

T – É uma iniciativa da equipa técnica do Teatro Cine, que nos convidou. Eles estão a ajudar a preparar todo o espectáculo, desde cenário, o palco, as luzes, o som, vai ser algo diferente por ser uma coisa nossa. Como já referi ainda há pouco, temos mais prazer em trabalhar com pessoas conhecidas, vamos estar em casa mas não deixa de ser um grande desafio.

Vocês actuam sempre num registo acústico, são duas vozes, uma viola e um piano que dão vida à vossa música. Consideras ser uma tarefa mais difícil de tocar as pessoas? Parece-me ser uma processo mais exigente…

T – Eu, enquanto espectadora, prefiro um concerto acústico. Claro que também aprecio a actuação de uma grande banda, é mais intenso provavelmente, no entanto julgo que os espectáculos acústicos são mais intimistas, há mais proximidade entre os músicos e o público.

J – Para resultar bem é preciso um equilíbrio em palco entre os músicos, pode realmente tornar-se mais difícil.

Para terminar, e porque falaste em difícil, diz-me Job, a possibilidade de criar uma carreira musical parece-te mais difícil em Portugal ou na Holanda.

J – São meios diferentes. Na Holanda tenho um amigo que é um guitarrista maravilhoso e canta muito bem, mas é difícil fazer-se notar porque existem muitos bons músicos, como por exemplo em Amesterdão. Há mais dinheiro para cultura, tanto para consumo como para formação, é frequente os pais tomarem a iniciativa de inscrever os filhos em escolas de música, pagam para isso. Aqui passa-se um bocado o contrário, as pessoas pensam que fazer carreira na música é muito difícil e não é uma boa opção. Há sempre vantagens e desvantagens…

Obrigado Tânia e Job pela empatia e simpatia demonstradas, até breve…

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