
A Viviane esteve na Casa da Música, no Porto, a dar um concerto e a Imagem do Som esteve, obviamente, presente.
Conversámos com a artista logo após o espectáculo. Aqui fica a entrevista.
Parabéns pelo espectáculo Viviane, e começávamos precisamente por aí, o que achou do espectáculo?
Pessoalmente gostei imenso, houve uma onda, uma energia muito positiva desde o início até ao fim do concerto, a participação das “Vozes da Rádio” também foi um momento muito bonito e gostei muito desta noite, acho que foi uma noite mágica.
Gostávamos que nos fizesse um bocado a ponte entre “Entre Aspas” e Viviane, muito embora Viviane seja já um nome à parte e completamente dissociado de “Entre Aspas”, porque existem muitas diferenças entre estes dois projectos, não é assim?
Sim, a minha intenção era precisamente essa porque eu já tinha vontade de explorar um outro universo musical, e é claro que nos “Entre Aspas” não havia o espaço necessário para poder fazer este tipo de experiências, com estas sonoridades. Nós éramos uma banda e tínhamos um caminho traçado que era dentro do Pop/Rock, portanto quando acabaram os “Entre Aspas” iniciei esta minha carreira a solo. O meu primeiro álbum talvez ainda tivesse feito a ponte entre os “Entre Aspas” e agora esta minha sonoridade. Agora neste terceiro álbum, de facto, acho que consegui atingir aquele universo musical que eu idealizei e que eu pretendo explorar.
Portanto isto é muito mais Viviane…
Sim, sem dúvida.
Já agora para aqueles que estão menos familiarizados com Viviane, sonoridades ligadas essencialmente ao Fado?
Sim, sim, era realmente uma vontade muito grande que eu tinha de explorar o Fado, não de uma forma tradicional, nunca foi minha intenção ser fadista ou assumir o Fado de uma forma tradicional, embora o respeite e admire, mas sim trazer o Fado para a minha música e mistura-lo com outras influências.
Tivemos em 2005 “Amores imperfeitos”, “Viviane” em 2007 e agora este “As pequenas gavetas do amor”, fale-nos um pouco mais deste novo álbum que saiu em Março de 2011.
São 11 canções onde se misturam sonoridades da Guitarra portuguesa, do Acordeão, com um cheirinho a Musette porque isto, no fundo, é um bocado o espelho das minhas influências e das minhas vivências. Eu nasci em França, vim para Portugal com 13 anos e eu tenho recordações musicais que são muito fortes e que eu aqui quis juntar, portanto isto está muito presente neste álbum. Para ele também convidei uma série de pessoas que foram muito importantes, guitarristas de Fado, o Custódio Castelo, o Luís Varatojo da “Naifa”, o Luís Ribeiro, o Miguel Drago, vários guitarristas portanto. Num dos temas também convidei o António Zambujo a cantar comigo o “O Tempo subitamente solto…” que é um poema de José Luís Peixoto e mais uma vez quis prestar também, desta forma, homenagem a alguns escritores como é o caso do José Luís Peixoto, Ana Luísa Amaral, do Fernando Pessoa, do Vasco Graça Moura, do Eugénio de Andrade, uma série de escritores.
Interessante essa associação a grandes vultos da escrita/poesia portuguesa como Fernando Pessoa, também já tinha acontecido no projecto “Rua da Saudade” que era uma homenagem a Ary dos Santos, mas depois também a escritores contemporâneos como José Luís Peixoto…
…é de facto um destaque da actualidade, um grande escritor com uma sensibilidade impar. Portanto é um disco que reúne todas estas coisas e isto torna-se interessante pela riqueza das pessoas que participaram nele.
E o título “Pequenas gavetas do amor” é também interessante…
Penso que nós, pode parecer um bocado filosófico, mas acho que somos feitos de gavetas e o amor é um tema inesgotável. Todas as artes estão ligadas ao amor e o próprio ser humano não se pode esquecer do amor.
…é mesmo o tema central do álbum?
É o tema central, aliás tem sido um bocadinho em todos os meus álbuns porque não me canso de sentir isso. Muitas vezes esquecemo-nos das coisas mais simples e o sentimento maior e aquele que dá mais futuro à humanidade é o amor, sem dúvida.
Este álbum foi mais uma vez editado pela sua editora, a Zipmix, é uma vantagem?
Não é segredo para ninguém que hoje em dia as editoras estão numa situação um bocado complicada e portanto decidi fazer este álbum completamente por mim própria porque também tenho a facilidade de ter um estúdio de gravação. É uma edição de autor o que tornou o processo todo muito mais fácil e muito mais orientado por mim e segundo as minhas vontades.
Voltando à associação com poetas portugueses, essa é uma aposta a manter?
Sim, é sem dúvida. Eu também escrevi e escrevo algumas letras. O “Não apagues o amor” é uma letra minha. Eu gosto de poesia e quando tenho um bocadinho de tempo leio e às vezes deparo-me com alguns poemas que gostaria de ter sido eu a escrever e eles tocam-me muito. E quando há algum especial, que tem aquele brilho que eu digo “Gostava de cantar isto, de partilhar isto” e então vou escolhendo alguns e geralmente parto dos poemas e dos textos para depois compor as músicas.
Depois do 1º single “Não apagues o amor” surge um novo vídeo do “Deixei a janela entreaberta” que achei extraordinário pelas referências culturais presentes, quer-nos falar um bocado deste vídeo?
Foi um vídeo feito com num só take, sem montagem, e essa tasca é uma tasca com características muito portuguesas, como já não há muitas, essa tasca onde foi feito o vídeo, por exemplo, ainda vende o vinho directamente da pipa para dentro do copo e eu acho essas coisas muito especiais e gostaria que elas não se perdessem. Eu orgulho-me de ser portuguesa e acho que Portugal tem coisas tão boas, tão bonitas e tão genuínas e essas pequenas coisas, coisas simples, que são muito portuguesas não se deviam deixar perder e daí a minha vontade de fazer, então, esse vídeo de uma forma muito simples nessa tasca.
Está de facto muito interessante e fez-me lembrar este concerto porque em ambas as situações se criou um ambiente quase familiar, como se estivesse a actuar para amigos, como acontece no vídeo…
É verdade e criou-se esse ambiente coisa que nem sempre se consegue. Por isso é que a conclusão que eu tiro é que foi uma noite mágica porque foi crescendo e é isso que tu estavas a dizer, no fim parecia que era uma família que estava ali e quando isso se consegue num concerto é muito bom.
Projectos para 2012, continuar a apresentar este último trabalho com certeza, e novidades haverá?
Portanto a seguir, no sábado, tenho outro concerto em Faro, no Teatro das Figuras, com outros convidados como o Luís Represas e o Zé Eduardo. No dia 17 de Dezembro, no CCB, com Luanda Cozetti, o Hélder Moutinho e o Mestre António Chaínho. Depois no início de 2012 é de facto para começar a compor novamente e quem sabe ainda, talvez, ter um álbum novo no final de 2012 ou início de 2013. O ritmo das coisas hoje em dia está muito acelerado e interessa fazer coisas com alguma assiduidade e rapidez.
Explorando estas mesmas sonoridades?
Sim, sim. Por enquanto é um formato acústico, é o Acordeão e a Guitarra portuguesa que estão, assim, mais na linha da frente. Quero continuar a explorar este universo musical mas não quer dizer que não introduza coisas novas ou que não faça algumas mudanças mas a linha principal vai continuar a ser esta.
E projectos paralelos como os “Rua da Saudade”, algo em perspectiva?
Não, para já não. São coisas pontuais que acontecem, já tinha acontecido em 2001 com a “Linha da Frente” depois este “Rua da Saudade”. São projectos que, no fundo, têm uma vida de um ano mais ou menos porque todas nós, que participamos, deixamos um bocadinho em suspenso as nossas carreiras para nos dedicarmos a esses projectos e agora todas nós regressamos às nossas carreiras e seguimos os nossos caminhos.
Agora a pergunta cliché para esta altura do ano, desejos para 2012 falando, inevitavelmente, da crise e de Portugal.
Eu sou uma pessoa que naturalmente não gosta de se deixar ir abaixo pelas coisas más que me possam estar a acontecer. Gosto de levantar a cabeça e pensar positivo. De vestir os meus vestidos de vermelho e olhar-me ao espelho e tentar ter esperança porque acho que a esperança, realmente, é a última a morrer. Eu acho que nós podemos aprender com esta crise e temos que tentar ser positivos, temos que reformular as nossas vidas. Se calhar viver com menos mas se calhar melhor. Se calhar podemos perder em quantidade mas, quem sabe, não poderemos aprender a ganhar em qualidade. Eu gostaria muito que esta crise servisse para isso. Que as pessoas aprendessem a viver de outra forma, olhando um bocado mais para as pessoas que estão à sua volta. Acho que este caminho nos estava a levar muito para a indiferença, ter tudo, querer ter tudo, poder ter tudo muito rápido mas acho que se calhar isto é um sinal que temos que abrandar um bocadinho e pensar mais na nossa existência e reaprender a viver e, mais uma vez, volto às coisas simples porque acho que as coisas simples são muito importantes.
Muito obrigado à Viviane pela disponibilidade, a Imagem do Som deseja as maiores felicidades para o futuro.




















