O Abominável, os Homem Mau, os Blind Charge e O Bisonte aliaram-se este fim de semana ao Basement para celebrar o que de melhor se faz no rock portuense. O motivo não era o melhor – o bar vai fechar as portas – mas nem por isso a festa esmoreceu. “Enquanto nos lembrarmos do que aconteceu aqui, isto não vai acabar”, isso é certo.
O rock começou com O Abominável e uma casa cheia. Vitor Pinto fez o aviso à navegação: “Se for preciso, vamos fazer a festa para o INEM”. Não que não fosse igualmente emocionante, mas não houve necessidade. O rock que o Basement deu à cidade é feito de amigos e de um respeito e admiração mútuas entre as bandas.
“Ardor meu amor”, “Teu” e “Jugular” foram os temas que aqueceram um público a preparar-se para uma noite que dificilmente se vai apagar da memória. Um apontamento para “Canção do Engate”, um monstro a cantar Variações versão rockalhada merece nota positiva. A terminar, já o tom ia alto, Vitor Pinto grita por “Isabel” e não deixa passar o momento sem lembrar que “é preciso ter orgulho nestas que são, no momento, as melhores bandas nacionais”.
O ABOMINÁVEL
Melhores ou não, comparações à parte que a noite de despedida do Basement não pode ser comparada a nada. Adjetivo pequeno mas eficaz, bom é o que fazem os Homem Mau, a passos largos para os dez anos.
Sem grandes artifícios, subiram pela última vez ao palco do Basement que os viu crescer e deram um espetáculo capaz de fazer mexer as pedras da calçada. Com o rock sem espinhas de “Vícios Acabados”, “Dono das Palavras” ou “Espelho” abriu-se lugar ao mosh que já estava há muito contido. E foi rock, tanto rock que aquelas centenas de pernas aguentaram.
“Frio” foi o momento dado à sensibilidade que aqui ninguém de ferro. Nem pretende sê-lo. Cláudio Alves desceu do palco, abraçou-se ao público e juntos fizeram as palavras transpor as paredes do Basement: “São os sentidos que me prendem ao mundo. São velhos amigos entre o vil e o tu”. Para fechar, “Ace of Spades”, dos Motorhead, foi épico. Pedro Alves saltou para o protagonismo e foi “até desmaiar”.
HOMEM MAU
Em noite de tudo ou nada, cheios de pressa de fazer história, os Blind Charge voltaram ao Basement com a certeza de que poucos lugares haverá onde tenhamos tanta certeza que isto vale a pena.
Com o controlo voluntariamente perdido há muito, por entre o mosh e o crowd surfing, a dúvida fica entre quem foi mais feliz: os ouvidos, as pernas ou os próprios corações. Aqui, foi viver o rock até não haver por onde transpirar mais lado a lado com “March”, “Mr. Ocean”, “Recapture” ou “Idiots Savant” e os vários vocalistas a contribuir para a festa. Tudo a remar para o mesmo lado que é como faz sentido.
E não que ninguém soubesse, mas só para frisar, diz Pedro Ferraz que “enquanto nos lembrarmos do que aqui aconteceu isto não vai acabar”. E “Walking Cliche” a fechar e dar lugar ao bicho.
BLIND CHARGE
A última cartada saiu – salve seja – dos cornos d’O Bisonte, esse animal que desperta a irracionalidade em cada um. Agora e até ao fim da noite, é esquecer o mundo lá fora pois parece que “os cães chegaram”. Aqui, só é preciso um único acorde para desatar tudo aos saltos, ao gritos, soltar a voz e as emoções sem retrações. Até ao último segundo.
O bicho trouxe “Acácia”, “Matilha dos Tristes”, “Imóvel”, a sempre mais do que pedida “Bandidagem”. “Eu não sei se vocês aguentam com essa”, diz Davide Lobão. Queres apostar? Um vocalista de menos palavras nesta noite onde o sentimento deu nó na garganta.
À mistura com os membros das outras bandas ainda se ouviu uma versão de “All my life”, dos Foo Fighters em passo apressado para o delírio habitual de “Laia”. “Se isto não é rock, não sei o que será”. E nós nem nos atrevemos a pensar.
A noite havia de terminar ao som de Neil Young e o hino “Rockin’ in the free world”. Porque enquanto formos livres havemos de sonhar com uma casa como o Basement a abrir, novamente, na Invicta para dar voz a este rock tão genuíno.
O BISONTE























































































