IMAGEM DO SOM | Reportagem de Espetáculos

PEDRO ABRUNHOSA | Coliseu do Porto

Foi de pé e num aplauso absoluto que o Porto recebeu Pedro Abrunhosa. É que lotar concertos pelo país fora é uma coisa. Mas esgotar três Coliseus na Invicta, com dois dos espetáculos no mesmo dia, é para ilustres. “Canções” é o nome que faz nascer este ciclo de concertos intimistas, onde o espetáculo perde uma costela para dar vida a 100% à essência da carreira de Abrunhosa: as canções.

“Dizes-me a cantar: é assim que eu sou” foi dos primeiros versos que o cantor trouxe ao Coliseu e a mensagem do tema “Viagens” não podia ter sido mais à medida. E não foi preciso muito para que todos se lembrassem do que vieram ali fazer: cantar muito todas estas “Canções”.

Sem demoras, o público encadeou num “É difícil” e o papel de maestro não custou nada a Abrunhosa. Este coro ia preparado. Sentado ao piano, o cantor interpretou “Não desistas de mim” e ”não desistas de nós” pareceu-nos a maior entoação naquele Coliseu a rebentar.

A acompanhar Pedro Abrunhosa esteve o Comité Caviar, banda responsável pelas novas vestes das canções de sempre, e uma série de fotografias desestabilizadoras de Augusto Brázio. E, finalmente, um “Boa noite, Porto!”, as três célebres palavras para esta “cidade encantada, superior, mística, nobre”.

Abrunhosa apresentou este como “um concerto aberto porque, como viram, não tive que cantar nenhuma música”. Informal como se queria, “Pontes Entre Nós” abriu espaço ao karaoke. Foi vê-los correr para o palco, homens, mulheres, pequenos e crescidos para cantar com Abrunhosa. “E, assim  abraçados, celebramos juntos o pulsar de versos remotos, agora aprisionados pela nossa Voz comum. Este é o meu mundo”.

Mais comunicativo, como o conhecemos, apresentou “uma das canções incontornáveis, com três palavras…não, não é essa! Estamos mesmo no Norte!”. A canção era “Não posso mais”, diferente do ritmo habitual: mais tecno, à mistura com uma guitarra rockeira a provar que se a base for de sucesso, se pode fazer tudo com estas canções. A crítica, claro, não faltou: “não podemos mais com a corrupção, as nomeações, o clientelismo”.

De volta ao piano, Abrunhosa ora acelera ora sossega os ânimos. Depois de “Pode o céu ser tão longe”, tempo de cantar “temas de outros mas que me marcaram”. Como “Purple Rain”, de Prince, “canção que eu estava quase a escrever quando ele a lançou”, brincou o cantor.

Sensível à noite que se criou, Pedro Abrunhosa frisou que “estamos a celebrar a forma de sonhar, de amar, a nossa forma de comunicar, a nossa língua”. E com as portas da informalidade escancaradas, o cantor começou num devaneio a ler os mais diferentes textos, de Mário Cesariny a Helberto Helder, seguidos de uma aula de hip hop.

Socorro”, apropriado, era a canção que se seguia e logo depois “É preciso ter calma”, que renasceu com o saxofone de Paulo Gravato. O gesto é o de sempre e não precisa de ensaio.

Nas redes sociais, os fãs pediram “Como uma Ilha” e o prometido é devido. Mas Pedro Abrunhosa tinha mais palavras para cantar. Tinha Fausto Bordalo Dias e o tema “Porque me olhas assim” e, sem intervalos, “Será”.

Deixas em mim tanto de ti” foi os dedos de Abrunhosa nas teclas, a voz nas paredes do Coliseu e o coro de centenas, sussurrado e pouco contido. Porque a maior emoção veio aos primeiros sons de “Eu não sei quem te perdeu”. Pedro, deixa esta para este público, nem precisas de te cansar.

Entre “Entre a espada e a parede”, “Je t'aime, moi non plus”, de Serge Gainsbourg, e “Se eu fosse um dia o teu olhar”, Pedro Abrunhosa faz o que bem quer e ainda dá ao público o que este mais anseia. A receita só tem como funcionar. A qualidade parece estar na massa.

O tema “Ilumina-me” divide o protagonismo entre a força da letra, a interpretação do cantor e a luz das centenas de telemóveis que se elevaram no Coliseu do Porto, mas que podia bem ser “a vossa luz de dentro”. “Eu sou um privilegiado”, confessou Abrunhosa.

Não há espetáculo sem encore e o Coliseu presenciou dois. No primeiro, Pedro Abrunhosa e os Comité Caviar instalaram a loucura ao som de “Rei do Bairro Alto” e o êxito “Fazer o que ainda não foi feito”. Estava a sala toda de pé, a cantar de cor, e o ambiente não mudou com o clássico de sempre “Lua”. Abrunhosa desceu à terra e infindáveis são as vezes que cantou “loucas são as noites”.

Da segunda vez que voltou ao palco e ao piano, o cantor trouxe o aguardado “Momento” e “uma noite encantada para o resto da vida” era o que toda a gente lhe queria gritar. Aos primeiros acordes de “Tudo o que eu te dou” – a última, mesmo última – Abrunhosa não teve que fazer mais nada porque essa era cantada deste lado. Mas alguém não sabe esta?

Enquanto o ecrã projetava a frase de Jorge Sousa Braga, “Esta cidade não é uma cidade, é um vício”, os artistas só tiveram forças para a vénia, três horas de concerto depois.

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