IMAGEM DO SOM | Reportagem de Espetáculos

LES DISCRETS + ALCEST | Hard Club

Passava pouco tempo depois da meia-noite quando Neige se encontrava em palco para iniciar a viagem de Alcest. Alcest é, muito provavelmente, uma das bandas mais queridas do público amante de sonoridades mais pesadas (e não só). Inicialmente concebidos em campos mais extremos, não fosse Alcest ter sido formado como banda de black metal; em boa altura Neige entendeu que algo mais belo podia fazer. Com o seu primeiro trabalho de cara lavada, “Souvenirs d'un autre monde”, Neige veio unir gentes de vários géneros e sub-géneros - gótico, metal, alternativo, são só alguns exemplos; sendo Alcest considerada um das bandas mãe do pós-black metal, ou black metal atmosférico, shoegazing, agora estilos muito em voga no ambiente musical mais alternativo. Certo é que o amor que se liberta nas criações sonoras deste francês é capaz de apaixonar facilmente qualquer amante de música, basta ter mente aberta e seguir a mensagem, a viagem!

Alcest anda a rodar em palco o último álbum, “Les Voyages de l'Âme“, registo editado no início deste ano. No entanto, o mais recente trabalho ainda não se encontra bem entrosado no ouvido do público português, sendo visível alguma falta de alma na escuta das músicas que dão lugar a esse registo. O tema homónimo “Les Voyages de l'Âme“, bem como o seu single “Autre Temps”, foram os temas que deram mais alento à sua passagem no Hard Club. “Le Iris” foi a primeira pedra mais audaz lançada na noite de ontem. O álbum “Souvenirs d'un autre monde” continua a ser aclamado por muitos como o melhor trabalho de Neige, e se “Le Iris” já tinha justificado isso mesmo, o tema “Printemps Émeraude” foi a música que aproximou definitivamente o público ao concerto. Daqui para a frente o espetáculo ganharia outros contornos, outra cor. Sons limpos carregados de echo e reverb, passagens sónicas que se assemelham a um post-rock banhado às raízes do black, bem como harmonias vocais pautadas na língua materna de fazer verter uma lágrima, é som tipo que caracteriza Alcest; e “Écailles de Lune” pode ser considerado o seu cartão-de-visita, já que os cerca de 10 minutos que compõe esta primeira parte do tema possibilita ao ouvinte uma viagem integral a toda essa bela personificação.

Sur l’océan couleur de fer”, por sinal dos temas mais calmos de todo o universo de Alcest, foi alvo de uma boa ovação por parte do público. Dificilmente alguém fica indiferente à melodia existente na composição desta música. Aliás, por momentos a Sala 2 do Hard Club ficou completamente paralisada com som tão relaxante. “Percées de lumière” também ele do segundo álbum terminaria o espetáculo.

Com uma Sala 2 inconformada, o público queria mais, pedia-se mais, exigia-se mais um rasgo do livro de melodias do francês. No joguinho do costume, entre assobios e palmas, Neige lá apareceu com o resto da crew para proporcionar uma última viagem ao público. Como encore esteve reservado “Souvenirs d'un autre monde” (o nome diz tudo) e “Summer’s Glory“, o último quadro do recente álbum.

Alcest é pura arte, é uma mistura de sentimentos, faz sonhar, refletir, sorrir, é puro amor. Por muito cliché que tal associação possa soar, Alcest até foi o projecto perfeito para apadrinhar uma noite de S. Valentim. Casais encantados, abraçados ao som deste poderoso movimento de sentimentos, não faltou ontem no Hard Club. Por muito cliché que isso possa ser, foi isso mesmo, foi amor!

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As primeiras partes estiveram a cargo de Soror Dolorosa e Les Discrets. Les Discrests, projecto liderado por Fursy Teyssier, possui precisamente Neige como baixista ao vivo. Aliás, praticamente o line-up de Alcest e Les Discrets é partilhado. O bom relacionamento entre estes senhores já dura desde os tempos de Amesouers. Serviu para amaciar o público para o que seguidamente viria, dado que as ondas por onde navegam já produzem um relaxamento profundo, preparando assim um terreno de fácil trilho para Alcest. O concerto foi competente, apesar do som não ter sido o melhor durante os primeiros temas, melhorando consideravelmente a cada iteração que tomavam em palco. Se post-rock negro é o que se pode ouvir em “Le Mouvement Perpétuel”, já “La Luit Muette” leva ao limite o poder desta banda, tendo sido um dos melhores registos apresentados no concerto. A variação explosiva na segunda metade deste tema é devastadora, atenuada por um final que dá lugar a duas guitarras carregadas de echo.

Soror Dolorosa, banda direcionada para outros campos da música, Post-Punk à lá Joy Division pode ser um dos primeiros nomes que nos vem à cabeça quando se ouve este projecto. A própria forma como os elementos desta banda se apresentam em palco faz-nos viajar no tempo uns 25 anos. Tal como a forma deprimida como o vocalista se expressa, comum a muitas bandas do género, também induz que esta banda se quer tornar o mais fiel possível aos seus princípios. Concerto prezado, serviu para agradar ao público que estaria lá surgido de outro universo musical, mas também ele para ver Alcest.

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